Luís Osório deixa carta aberta emocionante a Zé Maria do Big Brother: “Uma criança grande nuns olhos puros e ingénuos”

Luís Osório deixa carta aberta emocionante a Zé Maria do Big Brother: "Uma criança grande nuns olhos puros e ingénuos"

O jornalista Luís Osório voltou a surpreender os seguidores na rede social Facebook com uma carta dedicada a Zé Maria, o ilustre vencedor do primeiro Big Brother, em Portugal, que levou para casa cerca de 100 mil euros e, anos mais tarde, acabou na miséria.

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“O Zé Maria do Big Brother terá lugar no paraíso

1.
Também eu vi o primeiro Big Brother.
Quando penso que já passaram 22 anos volto à minha avó Joaquina que me dizia sempre para aproveitar a vida: “Olha que isto passa muito depressa”, insistia em proclamar.

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Eu não lhe ligava, a juventude é o estado em que vivemos mais coisas em menos tempo e o único lugar em que a eternidade realmente existe.

Não lhe ligava, mas as nossas avós têm razão: isto passa mesmo demasiado depressa.

O Zé Maria tornou-se um ídolo.
De repente, entrou-nos pela casa um jovem que não era como os outros. Uma espécie de criança grande que dizia coisas de uma ingenuidade que comovia, de uma pureza que lhe era natural, como se tivesse nascido num outro planeta.

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2.
Zé Maria ganhou o concurso e tornou-se uma estrela.

Fizeram-se anúncios em que ele aparecia a vender isto e aquilo.

Pagavam-lhe para ir a discotecas.

As senhoras de Cascais e da Lapa adoravam tê-lo nas suas vernissages.

Foram feitas t-shirts com a sua cara e frases que disse nas suas intermináveis e deliciosas conversas com as galinhas na quinta.

3.
O Zé Maria desapareceu depois das nossas vistas.

Não aguentou a pressão mediática.
Entrou numa depressão profunda.
Tentou suicidar-se.
E tornou-se um exemplo do que a televisão, do que a fama, pode fazer quando as luzes se desligam.

O barranquenho Zé Maria quase se perdia.

Por ser exatamente o que mostrou ser, quase se perdia.

A ingenuidade ou a pureza não se salvam quando alguém faz um pacto com a fama. Alguém assim nunca está verdadeiramente protegido contra as tentações de uma vida que é implacável na sua artificialidade.

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4.
Zé Maria embarcou num conto de fadas.
Foi embalado numa mentira de que não se conseguiu proteger.

E um dia não teve a certeza se as pessoas gostavam dele ou o gozavam. Se eram suas amigas ou o utilizavam. Se queriam estar próximas ou o desejavam enganar.

Foi aí que quis desaparecer.

E foi aí, que depois de ter sido salvo, percebeu que tinha de fugir de uma outra maneira.

5.
Uma revista foi encontrá-lo por estes dias em Barrancos no seu trabalho de jardineiro.

Fizeram-lhe perguntas quando terminou o seu turno.

Como estava?
Como tem passado?
Ainda sem lembra?

E o Zé Maria respondeu com a simpatia de sempre: “Está tudo bem, obrigado. Está tudo ok, obrigadíssimo, mas compreenda que não vou falar”.

6.
O Zé Maria é jardineiro.

Sabe preparar a terra.
Sabe plantar e regar.
Sabe controlar as pragas.
Sabe como falar com as plantas que parecem reconhecer o que lhes diz – como antes as galinhas paravam para o ouvir.

Os amigos de sempre, abraçam-no.
Os velhotes de Barrancos acenam à sua passagem.
As crianças do lugar sabem quem é, sabem a sua história e até a história do seu admirável silêncio.

Zé Maria é um exemplo.

Foi um exemplo quase se tornou uma estrela por ser tão diferente das outras estrelas.

E é um exemplo quando escolheu o silêncio como modo de sobrevivência.

De uma maneira ou de outra, o Zé foi sempre especial.

Uma criança grande nuns olhos puros e ingénuos.

Se existe um outro mundo melhor então o Zé Maria está em vantagem sobre a maioria de nós.”

Luís Osório

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